
I. O comensal semi-ausente
Era fim de tarde.
Uma dessas tardes aclimatadas pelas jactar permanente e prazenteiro do Professor Pardal, ou as investidas do Bovino às tíbias dos adversários, deixando-as com a rótula acinzentada, o músculo acastanhado, e a dor sofrida de um sofrer, que qualquer velha poderia mesmo dizer: - «tenho uma dor que nem sinto».
Era fim de tarde.
A luz, cada vez menos presente intrometia-se pelos ramos das árvores espiando os homens esforçados, agora mais asseados, corridos de coragem e escorridos pelo zelo da minguada água quente do «balneatório». Acredito, mas nasceu ali mesmo o plano nacional de poupança de energia (PNPE), que Fócrates viria a rogar como sua ideia passados meses no decorrer da martelada governativa.
Era fim de tarde.
O Faneca já se tinha esgueirado na névoa de spray do Parideira, escoltado com a lancheira azul presa na mão. Tinha dado o salto, pensei.
– Que é feito do Faneca? – Perguntou o Pardal.
– Emigrou. Teve medo do calor do brasido! – Comentou o Onofre.
– O «gaio» nunca fica para as tainadas – retorquiu o Papa-Golos.
O festejo estava ateado junto ao lago. Tudo tresandava a essa dádiva que é nutrir e embeber o corpo são e da São, ora com gosto, hora de desgosto. Dezenas de odores, quentes e frios, gélidos e rubescidos pairavam pelas ventas de alguns e pelas narinas de outros.
Era fim de tarde.
Uma fragrância quente a fritura das batatas compradas na mercearia do Belmiro em Eiras, a levedura das minis, levadas também dali, o etanol em efervescência do garrafão do Prof. Pardal, made in Sinceira, uma gasosa para parir traçadores, outra mistura para encantar o Gregório. Emanava ainda um perfume suculento do brasido, dessa fundição de breves traçados de abdómen de suína, fêveras de porco de cobrir capado em velho, salsichas de 200$ por Kg, e boroa de milho ou papos secos da dona Amélia ladrona.
Era cada vez mais fim de tarde e não estávamos todos. O Pedradas, andava escorreito, branco, translúcido, embutido de um fino oleoso de baga virgem, quase fazia uma quinzena. Era fim de tarde e ele gemia num pranto intenso, uma qualquer intempestiva derrocada na volúpia da sua flora intestinal, fazendo breves aparições do que restava na verdura da paisagem.
- Ele anda a fazer alergia ao imodium Rápido – Comentou o Papa-Golos
- Anda, anda…. Anda todo polido da tripa. – Disse o Noddy.
- Olha que o gajo anda branco, deve ser da máquina! – Retorquiu o Onofre, questionando qual das máquinas. Se a máquina corporal, somatório de sebo e tripas, se a máquina fotográfica presa ao pescoço.
Naquele espaço exíguo da paisagem, fugiu umas 20 vezes. Estava apertado e cada uma das pernas movimentava-se em soldadura. Cada minuto era um novo suspiro, um arfar de ar porno.
Mas depois lá voltava suspirando: - É fruto do intestino!
Cheguei perto do Onofre, do Noddy, do Pardal e disse: - O Lavoisier tinha razão! – Eles por momentos ficaram a pensar no princípio e viram com clareza aquilo que era uma lei da natureza: «na natureza nada se perde, experimenta cagar agora e comer depois».

